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Dom Casmurro – A fascinante narrativa de Machado de Assis

Esse sem dúvida é um dos meus romances preferidos e a cada releitura eu fico mais apaixonado pela narrativa machadiana repleta de ironia, jocosidade e porque não dizer também de suas doses de sarcasmo (qualquer semelhança não é mera coincidência). Como qualquer outro livro o que também me atrai e muito é a densidade das personagens e aqui elas são muito ricas, tendo inclusive uma das personagens mais enigmáticas da literatura brasileira, sendo essa também uma das mais estudadas (isso se não for a mais estudada); Capitu com seus olhos de cigana oblíquos e dissimulados.

Como terminei a pouco a minha releitura desse clássico pensei até em fazer uma resenha, mas o que eu poderia escrever que já não foi escrito de forma muito melhor do que eu poderia fazer? Deixa que eu mesmo respondo: Muito pouco!

Confesso que até pensei em escrever alguma coisa, mas depois que eu li uma antiga resenha escrita por Ferreira Gullar sobre a importância de Dom Casmurro eu achei mais adequado replicar seu texto nesse blog (que carece de atualizações, eu confesso). Seu texto sobre Dom Casmurro é sucinto e de uma sensibilidade que vai ao cerne das questões em voga nesse que é um dos maiores clássicos não só da literatura brasileira como também mundial.

Deixo a seguir então o texto de Ferreira Gullar, quanto as minhas impressões, ficam para uma próxima vez, assim ao invés de tratar do livro como um todo posso me dedicar mais a algumas personagens que tanto gosto como a encantadora mulher de olhos de ressaca.

O FEITIÇO DO BRUXO


Uma rápida escaramuça encrespou o meio literário quando alguém afirmou que o romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, não era lá essa obra-prima que se diz que é. Ao ler alguma coisa a respeito, perguntei-me se não poderia essa crítica ter algum fundamento -e fui conferir.

Fazia quase 20 anos que não relia o romance e, muito embora minha opinião sobre ele fosse a consagrada, alimentava, machadianamente, a hipótese de vê-la desmentida. Não é que eu tenha restrições ao Bruxo do Cosme Velho, mas é que, a exemplo dele, não gosto de mistificações, a verdade deve ser dita, ainda que doa um pouco. Assim, investido de total isenção, iniciei a minha releitura e, logo no primeiro parágrafo, já estava de novo enfeitiçado por sua irreverência bem-humorada. Depois de contar como ganhara o apelido de dom Casmurro, que decidira usar como título do livro, alude à hipótese de que o autor do apelido venha a julgar-se também autor do livro, e arremata: “Há livros que apenas terão isso de seus autores; alguns, nem tanto”.

Como não pretendo meter-me em polêmicas alheias nem fazer uma reavaliação crítica do famoso romance, vou tentar dividir com você, leitor, as alegrias que a dita releitura me proporcionou. Mesmo que já tenha lido o romance -o que é bem provável-, não deixará de reler com prazer trechos como este:
“Ia entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. A casa era a da rua de Mata-cavalos, o mês novembro, o ano é que é um tanto remoto, mas não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas; o ano era de 1857”.

Como o leitor bem sabe, Bentinho, já então velho e casmurro, imaginou preencher sua solidão escrevendo talvez sobre jurisprudência, filosofia e política, mas logo desistiu e pensou em escrever uma “História dos Subúrbios”, de que abriu mão por lhe faltarem documentos e datas. Restou-lhe, então, escrever sobre sua própria vida, o que implicaria contar a história de um amor nascido na adolescência, quando conheceu a menina Capitu e os dois se apaixonaram; um puro amor de crianças, que começou no quintal da casa e se alimentou dos sorrisos e olhares da menina que, segundo o agregado da família, José Dias, tinha “uns olhos de cigana, oblíqua e dissimulada”.

Mas a Bentinho era difícil encontrar a definição para aqueles olhos: “Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá a idéia daquela feição nova. Traziam um não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me, tragar-me”.

E, de fato, tragou-o. Tanto que tudo fez para se livrar do seminário e se entregar definitivamente à paixão de sua vida. Os ciúmes que ela lhe despertava desvaneceram-se quando os dois juraram que haveriam de se casar e viver juntos o resto de sua vida. Casaram-se e lhes nasceu um filho a que deram o nome de Ezequiel, em homenagem a Ezequiel Escobar, o melhor amigo do casal. Só que, à medida que o menino crescia, mais se parecia com o amigo e não com o pai. Bem, todo mundo já conhece essa história e, se a relembro aqui, é por ser ela a matéria amarga com que Machado inocula seu pessimismo.

“Dom Casmurro” é um livro triste que nos faz rir de nossa própria fragilidade e nos encanta por sua qualidade literária. Se é verdade que toda a obra de Machado está marcada pelo ceticismo e pela ironia, neste romance, o desencanto parece atingir seu ápice. A traição de Capitu não é uma traição qualquer: ela trai o puro amor de sua vida, a que jurara fidelidade. Aqui, o ceticismo de Machado revela-se implacável e irremissível. Que Marcela traia Brás Cubas, é compreensível; que Virgília traia Lobo Neves, é corriqueiro, mas, ao levar Capitu a trair Bentinho, Machado nos deixa em total desamparo. Não obstante, depois de tudo, nenhuma mulher levou Bentinho a esquecer Capitu, segundo ele, “a primeira amada” de seu coração. E por que? “Talvez porque nenhuma tinha olhos de ressaca e de cigana oblíqua e dissimulada.” À pergunta de se a Capitu que o traiu já estava na menina da rua de Mata-cavalos, responde que sim, estava, como a fruta na casca. E conclui o livro com estas palavras ressentidas, mas desabusadas: “A minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me… A terra lhes seja leve. Vamos à “História dos Subúrbios”.

A releitura de “Dom Casmurro” levou-me a reler “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, não menos amargas, mas das quais tiro para o leitor uma frase que o faça rir: “E eu, atraído pelo chocalho de lata que minha mãe agitava diante de mim, lá ia para a frente, cai aqui, cai acolá; e andava, provavelmente andava mal, mas andava, e fiquei andando”.

Pessimismos à parte, poucos escritores alcançaram, como Machado, tanta graça e mestria na arte de escrever.

PS: A imagem acima é a caracterização de Bento e Capitu feita para a microssérie Capitu, que ainda bem já saiu em DVD :D.

Link para o artigo original de Ferreira Gullar aqui.

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